Estudo de Rizoma de DELEUSE & E GUATARRI para uma poiesis integrada
DELEUSE, Gilles & GUATARRI, Félix. Mil Platôs. Vol I. São Paulo: Editora 34, 2011.
"A raiz pivotante não compreende a multiplicidade mais do que o conseguido pela raiz dicotômica" (p.20) {Deleuze usa uma metáfora das raízes para exemplificar sua teoria epistemológica. A raiz dicotômica equivale ao princípio dialético Hegeliano, a raiz pivotante considera mais possibilidades, mas todas voltadas para um eixo central. Mais adiante ele propõe a raiz rizomática que, segundo ele, realmente compreende a multiplicidade pela ausência de um ramo centralizador}
"Não basta dizer Viva o múltiplo (...). É preciso fazer o multiplo, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas ao contrário, da maneira simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões de que se dispõe, sempre n-1 (é somente assim que o uno faz parte do múltiplo, estando sempre subtraído dele). Subtrair o único da multiplicidade a ser constituída; escrever n-1. Um tal sistema poderia ser chamado de rizoma. Um rizoma como haste subterrânea distingue-se absolutamente das raízes radículas. Os bulbos, os tubérculos, são rizomas." (p.21) {aquil ele só descreve o que seria um rizoma metafórico}
Características aproximativas dos rizomas:
"1° e 2° - Princípios de conexão e de heterogeneidade: qualquer ponto de um rizoma poder conectado a qualquer outro e deve sê-lo. É muito diferente da árvore ou da raiz que fixam um ponto, uma ordem." (p.22)
"Uma cadeia semiótica é como um tubérculo que aglomera atos muito diversos, linguíticos, mas também perceptivos, mímicos, gestuais, cogitativos: não existe língua em si, nem universalidade da linguagem, mas um concurso de dialetos, de patoás, de gírias, de línguas especiais. Não existe locutor-auditor ideal, como também não existe comunidade linguística homogênea." (p.23) {Esta passagem é especialmente importante para mim, pois essencialmente o que proponho é que não há de fato uma linguagem encerrada em nenhum campo artístico, as fronteiras entre as linguagens são arbitrárias, moldáveis e variáveis segundo as situações. No contexto de se tocar como um ator, deixamos de ser atores porque estamos focando na emissão sonora? Ou então deixamos de ser musicistas porque não utilizamos a teoria musical tradicional como fundamento para a emissão sonora? Deixamos e ao mesmo tempo não deixamos de pertencer a esses campos artísticos, apenas adicionamos mais uma mutação, mais uma variedade de possibiilidades poiéticas. Que hajam manuais "gramaticais" que codificam as linguagens em um esforço de torná-la "compreensível" (e também comprimida) como explanado na Teoria musical de Bohumil Med ou então no Domínio do movimento de Rudolf Laban não significa que os artistas vão adotá-los por inteiro e falarem todos o mesmo dialeto. E, mesmo que o fizessem, isso não caracterizaria uma delimitação peremptória de um campo artístico, mas apenas um acordo temporário entre praticantes dos ofícios artístico. Alguns acordos temporários podem durar centenas de anos, como é o caso da teoria da música tonal, por exemplo, mas ainda assim esse contrato não se manterá indelével, mas sofrerá adendos e emendas inevitáveis, pois cada artista acaba reinventando sua própria teoria de ofício. Isto é o que umas das diferencias entre os ofícios poiéticos e as outras formas de conhecimento. E até mesmo áreas de conhecimento mais fundadas em "teorias universais" como a física por vezes emprestam princípios endêmicos às artes, mas que em outro contexto se tornam fatores de mutação e revolução. É o caso do trabalho do físico Paul Feyerabend em seu contra o método onde ele propõe que o conhecimento da física também deva ser realizado pela multiplicidade de abordagens ao invés da busca por uma teoria unificadora.}
"3° - Princípio de multiplicidade: é somente quando o múltiplo é efetivamente tratado como substantivo, multiplicidade, que ele não tem nenhuma relação com o uno com o sujeito ou como objeto, como realidade natural ou espiritual, como imagem e mundo. As multiplicidades são rizomáticas e denunciam as pseudomultiplicidades arborescentes." (p.23) {Esse é o motivo pelo qual eu escolhi a palavra "poiesis" e não "teatro" ou arte para me referir a forma de expressão que proponho e o verbo "poiezitar" ao invés de poetizar, pois este último remete demasiadamente à poesia escrita enquanto forma artística. Também não quero usar apenas a palavra "arte", pois esta se remete mais aproximadamente a um ofício enquanto que o que estou propondo é uma ética aplicada: uma forma de ser e de agir no mundo. O que proponho é se colocar no mundo como ser poietico como criador, ou melhor, como parte da criação, pois nem sempre quem cria é o sujeito, por vezes ele é apenas um meio. Nas palavras de Bruce Lee: não há o ator, mas apenas a ação.}
"4 - Princípio de ruptura assignificante: contra os cortes demasiado significantes que separam as estruturas, ou que atravessam uma estrutura. Um rizoma pode ser rompido, quebrado em um lugar qualquer, e também retoma segundo uma ou outra de suas linhas e segundo outras linhas." (p.25) {O ato poiético pode ser iniciado a partir de qualquer ponto. Posso iniciar uma emissão sonora tanto pela volição de gerar música quanto pelo movimento dos dedos enquanto dança ou até pelo estado afetivo que percorre toda ação, em todos os casos a expressão ocorrerá e poderá se desdobrar em qualquer outra parte do rizoma expressivo. Em outras palavras, não é porque estou com um violino na mão prestes a roçar o arco nas suas cordas que vou necessariamente estar no papel de musicista, isto seria uma segmentação. O capoeirista não deixa de ser capoeirista porque ele está tocando na bateria e não jogando no centro da roda.}
"O rizoma é uma antigenealogia." (p.28)
"5 - Princípio da cartografia e de decalcomania: um rizoma não pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo. Ele é estranho a qualquer ideia de eixo genético ou de estrutura profunda." (p.29) {Seria inútil procurar uma metodologia única para uma poietica integrada, pois todos os caminhos levam a todos os outros caminhos em um rizoma. Tocar é um pretexto para dançar tanto quanto a dança gera musicalidades, da mesma forma como o ritmo malabarístico contém e está contido no ato de tocar um instrumento. Cartograficamente poderíamos pensar que a poiesis ocorre a partir do lugar onde se está e, pelo devir, explora novos segmentos do mapa criativo. Na prática: se estou tocando violino e me deixo encantar pelos afetos que esta ação me provoca me dirijo para o campo artístico do ator e de lá outras formas poíeticas serão possíveis. Como um corpo sem orgãos, a transição de evidência entre uma forma de expressão e a outra não implica a supressão da primeira, nem a sua continuação. É um paradoxo e por isso mesmo é que é eficiente enquanto ato expressivo.}
"Uma das características mais importantes do rizoma talvez sejaa de ter sempre múltimplas entradas" (p.30)
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