Reflexões sobre a experiência - Jorge Larrosa

Uma referência boa para o meu trabalho pode ser Jorge Larrosa no sentido de discutir um conhecimento experiencial. O teatro, ou o que quer que eu esteja propondo como laboratório, é uma prática experiencial. É necessário vivê-la, não basta ler livros ou ver vídeos para apreendê-la. Isso também fala da indefinibilidade do que se está fazendo, isto é, cada experiência será única e nenhuma teoria sobre ela poderá ser homogênea ou universal.

    Uma reflexão que ele trás que me agrada é a de separar a experiência do experimento, isto é, definir experiência como algo que nos atravessa e nos transforma e não como uma prática de laboratório que pode ser repetida com as mesmas variáveis. O objetivo da experiência é nos fazer transcender de alguma forma a nossa existência, ressignificar os nossos sentidos de maneira a que a nossa vida seja diferente de agora em diante. Não se trata de apenas um experimento cênico. Isso corrobora com a minha proposta: imersão completa, pois não se trata de apenas criar algo, mas de recriar a si mesmo. Creio eu que esse é o caminho para pensarmos de maneira integrada: se quisermos sair da lógica cartesiana que compartimenta a vida e a arte é preciso se propor a mudar nossa visão de mundo interno, é preciso mudar quem nós somos, pois a compartimentalização está tão arraigada em nossa educação cultural que, para integrá-la, teremos que deixar de ser quem somos. Para tanto é que é preciso uma experiência no sentido que Larrosa nos propõe.

Alguns extratos que podem ser úteis:

“A experiencia e não a verdade é o que dá sentido a escritura” (p.7)

“Escrevemos para transformar o que já sabemos e não para transmitir o já sabido” (p.7)

O que é e não é experiência: “A experiência não é uma realidade, uma coisa, um fato, não é fácil de definir nem de identificar, não pode ser objetivada, não pode ser produzida. E tampouco é uma conceito, uma ideia clara e distinta. A experiência é algo que (nos) acontece e que às vezes treme, ou vibra, algo que nos faz pensar, algo que nos faz sofrer ou gozar, algo que luta pela expressão e que às vezes, algumas vezes, quando cai em mãos de alguém capaz de dar forma a esse tremor, então, somente então, se converte em canto.” (p.10)

Educação como uma arte : “É verdade que pensar a educação a partir da experiência a converte em algo mais parecido com uma arte do que com uma técnica ou uma prática. E é verdade que, a partir daí, a partir da experiência, tanto a educação como as artes podem compartilhar algumas categorias comuns.” (p.12)

“as palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras.” (p.16)

“(...) pensar não é somente “raciocinar” ou “calcular” ou “argumenar” (…), mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece.” (p.6-17)

“Quando fazemos coisas com as palavras , do que se trata é de como damos sentido ao que somos e ao que nos acontece, de como correlacionamos palavras e as coisas, de como nomeamos o que vemos ou o que sentimos e de como vemos ou sentimos o que nomeamos” (p.17)

Definição de experiencia: “a experiencia é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece ou o que toca.” (p.18)

“nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.” (p.18)

“A informação não é experiência” (p.18)

“Não deixa de ser curiosa a troca, a intercamnialidade entre os termos “informação”, “conhecimento” e “aprendizagem”. Como se o conhecimento se desse sob a forma da informação, e como se aprender não fosse outra coisa que não adquirir e processar informação”

“uma sociedade constituída sob o signo da informação é uma sociedade na qual a experiência é impossível” (p.19)

“a experiencia é cada vez mais rara (...) por excesso de informação. (p.18)

“(...) a experiencia é cada vez mais rara por excesso de opinião.” (p.19)

“a experiencia é cada vez mais rara por falta de tempo.” (p.22)

“a experiencia é cada vez mais rara por excesso de trabalho.” (p.23)

“O sujeito moderno se relaciona com o acontecimento do ponto de vista da ação. Tudo é pretexto para sua atividade. Sempre está a se perguntar sobre o que pode fazer. Sempre está desejando fazer algo, produzir algo, regular algo. Independentemente de este desejo estar motivado por uma boa vontade ou uma má vontade, o sujeito moderno está atravessado por um afã de mudar as coisas.” (p24)

“E (…) porque sempre estamos querendo o que não é, porque estamos semrpe em atividade, porque estamos sempre mobilizados, não podemos parar. E, por não podermos parar, nada nos acontece.” (p.24)

“A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção” (p 25)

O sujeito da experiência: “O sujeito da experiencia se define não por sua atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua abertura.” (p 25-26)

Experiência tem a ver com atavessa, com perpassar, com acontecer, deixar-nos abordar (p.26-27)

“somente o sujeito da experiencia está, portanto, aberto à sua própria transformação” (p28)

“Este é o saber sa experiencia: o que se adquire no modo como alguém vai respondendo ao que vai lhe acontecendo ao longo da vida e no modo como vamos dando sentido ao acontecer do que nos acontece.” (p.32)

“ (…) o saber da experiencia é um saber particular, subjetivo, relativo, contingente, pessoal.” (p32)

A experiencia é um modo ético e estético (p32) **pensar sobre isso....**

“ninguém pode aprender da experiencia do outro, a menos que essa experiencia seja de algum modo revivida e tornada própria” (p32)

“A primeira nota sobre o saber da experiencia sublinha , então, sua qualidade existencial, isto é, sua relação com a existencia, com a vida singular e concreta de um existente singular e concreto. A experiencia e o saber que dela deriva são o que nos permite apropriar-nos de nossa própria vida.” (p.33)

“A segunda nota sobre o saber da experiencia pretende evitar a confusão de experiencia com experimento ou , se se quiser, limpar a palavra _experiencia_ de suas contaminações empíricas e experimentais, de suas conotações metodológicas e metodologizantes.” (p34)

**Obs.:** Mas então como fazer ciencia sobre processos artísticos? Como retirar da experiencia de se fazer teatro uma metodologia teatral?

“se o experimento é repetível, a experiencia é irrepetível, sempre há algo como a primeira vez” (p.34)

“A educação sempre tem a ver com uma vida que está mais além de nossa própria vida, com um tempo que está mais algém de nosso próprio tempo, com um mundo que está mais além de nosso próprio mundo...” (p36)

“Em primeiro lugar, é preciso reivindincar a experiencia, dar-lhe certa dignidade, certa legitimidade. ' (p38)

“Na ciencia moderna o que ocorre com a experiencia é que ela é objetivada, homogeneizada, controlada, calculada, fabricada, convertida em experimento.” (p40)

“Então, parece-me que a primeira coisa que é preciso fazer é dignificar a experiencia, reivindicar a experiencia, e isso supõe dignificar e reivindicar tudo aquilo que tanto a filosofia como a ciencia tadicionalmente menosprezam e rechaçam: a subjetividade, a incerteza, a provisoriedade, o corpo, a fugacidade, a finitude, a vida...” (p40)

**Paginas 41-43 o que não fazer com a experiencia:**

Experiencia não é experimento

Experiencia não dá autoridade, pois cada um tem que fazer sua própria experiencia

Experiencia não é prática: não pensar a experiencia a partir da ação, mas a partir da paixão, a partir de uma reflexão do sujeito sobre si mesmo do ponto de vista da paixão.

Não fazer da experiencia um conceito

“talvez seja preciso pensar a experiencia como o que não se pode conceituar, como o que escapa a qualquer conceito, a qualquer determinação, como o que resiste a qualquer conceito que trata de determiná-la... não como o que é e sim como o que acontece (…)' (p43)

Fazer da palavra experiencia uma palavra afiada para impedir que qualquer coisa seja experiencia.

“Uma vida em vão é uma vida sem sentido e sem valor, nem para si próprio nem para os outros, e sentido e valor não são o mesmo que utilidade, uma vida em vão não é o mesmo que uma vida inútil visto que uma vida pode ser futilmente útil.” (p48)

“A impossibilidade de elaborar as experiencia, de lhes dar um sentido próprio. E se as experiencias não são elaboradas, se não adquirem um sentido, seja ele qual for, com relação à própria vida, não podem se chamar, estritamente, experiencias. E, portanto, não podem se transmitir.” (p50)

“Portanto, se o relato desaparece, desaparece também a língua com a qual se intercambiam as experiencias, desaparece a possibilidade de intercambiar experiencias” (p 50-51)


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