Episteme oraliturizada em meu corpo e os eixos paradigmáticos da pesquisa


    Em, Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela Leda Maria Martins defende a oralidade como produtora de um conhecimento epistémico que escapa à forma escrita de transmissão de conhecimento historicamente priorizada pelo Ocidente. Ela cunha o termo oralitura como uma forma de expressar o conhecimento inscrito nos movimentos, falas, cantos, experiências e vivências do corpo. Um conhecimento impossível de ser transmitido integralmente em palavras escritas sem perder grande parte dos seus fundamentos e que, para ser compreendido, deve ser vivenciado na prática.

   O trabalho do ator, como todas as artes performáticas, é uma arte de transmissão oral e, portanto, sua totalidade também é inapreensível à palavra escrita. Mesmo que hajam livros e manuais que descrevem determinadas técnicas e como aplicá-las, entre realizar os exercícios a partir de um livro e o conhecimento oraliturizado (MARTINS, 2021) necessário para compreendê-los integralmente há um abismo. Evidentemente, que coletâneas de exercícios como os de BOAL ou SPOLIN, podem ser utilizados de maneira criativa e até seguidos fielmente ao pé da letra como abordagem pedagógica ou criativa. Contudo, aplicar o conhecimento contido na escrita literária à plasticidade única de cada corpo e coletivo implica ter que recriá-lo e atualizá-lo. 

    Por isso, é essencial que haja uma transmissão de corpo para corpo para que a linha epistémica das artes performáticas se mantenha. Quando escrevi na dissertação as técnicas que aprendi de meu mestre Hugo Rodas, o fiz para o refinamento do meu próprio entendimento sobre uma técnica aprendida na prática em meu corpo e pelo meu corpo. Descrevi-a para que eu mesmo me orientasse quando fosse necessário passar essa prática adiante. Tenho minhas dúvidas se alguém, possivelmente do outro lado do mundo ou até em um outro tempo, lendo meus escritos será capaz de executar ou até de compreender o que exatamente é essa forma de teatro dança que praticava-se entre os anos 1970 e 2022 no interior do pindorama.

    Também nesta nova fase da pesquisa artística em que me encontro terei que reinventar, atualizar e recriar as abordagens, pois o mestre morreu e o discípulo, não tendo as mesmas qualidades do mestre, não conseguiria e nem deseja reproduzir ipsis literis o que lhe foi ensinado. O conhecimento oraliturizado em meu corpo agora se mistura com outras epistemes gravadas pela experiência e repetição e almeja poietizar outra coisa. 

    Para tanto, primeiro precisamos estabelecer uns eixos paradigmáticos deste trabalho:

  • O conhecimento performático só pode ser alcançado performaticamente, isto é, pela ação física, pelo ato de colocar-se em situação de vivência, de experiência sensória e reativa atualizada a cada momento. Ler pode ajudar, mas nunca substituirá a prática.
  •     A repetição da poiesis é o caminho para corporalizar esse conhecimento. Não a repetição pela repetição, mas a repetição da poiesis, isto é, do ato criativo a partir não apenas da racionalidade, mas da capacidade sensível (aestésis), intuitiva e afetiva (erótico???).


MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

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