Feedback da prof. Luciana Dias sobre meu trabalho e retorno da turma em forma cartográfica

 


Caro Café,


Após sua apresentação e a lida atenta do material mais recente enviado, intitulado “Material para Debate Seminário 2”, e considerando também os documentos anteriores, especialmente o Projeto, organizo abaixo minha leitura segundo alguns critérios de avaliação adotados nesta etapa da disciplina. Mas é aquilo, vc já tem muita clareza do que fazer e como, então minhas sugestões serão, no geral, pontuais, sem grandes reformulações — oque é um elogio, mas também um desafio: o que mais vc pode me entregar no trabalho final para mostrar um avanço na pesquisa: o capítulo (que está mais adiantado e delineado) 100% pronto? A introdução com um esqueleto que defina tão bem quanto o um o capítulo 2 ou 3? O desafio está lançado rsrs

Bem, vamos lá!


1. Clareza e coerência do tema
O tema central — a Poiesis Cênica Multissensorial — está bem delineado. Você propõe investigar uma abordagem integrada entre sonoridade e movimento para a criação em campos artísticos ampliados. O ponto de partida é sua experiência acumulada com Hugo Rodas e, posteriormente, com a disciplina TEAC-Huguianas, que serve como terreno experimental.
Há coerência interna, mas o texto oscila entre registros memorialísticos, poéticos e argumentativos, o que pode comprometer a objetividade em certos momentos. Ainda assim, a proposta é potente, original e bem localizada na sua trajetória enquanto artista-pesquisador.
Ou seja: tema consistente, bem justificado, com linguagem própria

2. Objetivos da pesquisa
Os objetivos estão formulados com clareza, especialmente nos textos anteriores. O objetivo geral é desenvolver estratégias metodológicas para a formação de artistas cênicos interdisciplinares por meio de uma abordagem integrada entre som e movimento.
Há também objetivos específicos que aparecem de forma implícita (e que poderiam ser mais explicitados no texto atual futura introdução da tese), por exemplo:
  • Sistematizar princípios técnicos de cruzamento entre som e movimento;
  • Criar exercícios laboratoriais que desenvolvam essa integração;
  • Mapear, via experimentação, os efeitos dessa abordagem na formação do artista multissensorial.
Ou seja: Falta explicitar melhor esses objetivos de forma direta ao final da introdução ou como uma seção própria do capítulo I, para dar unidade à estrutura.


3. Metodologia
Sua metodologia está muito bem delineada e combina:
  • Observação e análise qualitativa de registros de práticas anteriores (disciplinas TEAC e TEAC-Huguianas);
  • Experimentação prática de laboratório por meio de exercícios de improvisação baseados nos cruzamentos entre parâmetros do som e do movimento;
  • Análise dos efeitos dos exercícios com base em registros audiovisuais e entrevistas com participantes.
É um desenho metodológico coerente com uma pesquisa prática em artes cênicas, com ênfase no aspecto formativo e processual da criação. Talvez enfatizar que se trata de uma Pesquisa-baseada-em-Artes (Arts-based- Research?)
Ou seja: metodologia sólida, plural e bem estruturada, com articulação entre prática e teoria - mas que sempre pode melhorar... .


4. Consistência e lógica do sumário
O sumário apresentado no Material para Debate Seminário 2 tem boa organização:
  • Capítulo I – Conceitualização: trata dos fundamentos teóricos e das influências da técnica muscular, corpo poético, rizoma, interdisciplinaridade e capoeira.
  • Capítulo II – O laboratório multissensorial: propõe o espaço de experimentação prática com detalhamento técnico (inclusive tabelas combinatórias).
  • Capítulo III – Reflexões sobre os resultados do laboratório: antecipa a análise crítica do material colhido.
A estrutura está coesa, equilibrando bem conceituação, prática e análise.
Ou seja: muito bem organizado e promissor como estrutura de dissertação ou tese. termina esse capítulo 1 Logo!!! E tenta já estabelecer subitens para o 2 e o 3... para t dar uma rota
MAS... Senti falta de uma melhor delineamento dos capítulos 2 e 3... Vou  deixar aqui uma proposta, que não coloco como sumário mas como provocação ao pensar através de, quem sabe, possíveis tópicos :
Capítulo 2 – O laboratório multissensorial
(ênfase na prática, sistematização técnica e processo)

  • Contextualização do laboratório
  • Justificativa do experimento no âmbito da pesquisa
  • Relação com práticas anteriores (TEAC, TEAC-Huguianas)
  • Fundamentos técnico-compositivos
  • Tabelas combinatórias: som e movimento
  • Princípios coreográficos e musicais aplicados
  • Influência da capoeira e de metodologias de improvisação
  • Procedimentos e etapas do laboratório
  • Estrutura dos encontros
  • Perfil dos participantes
  • Ferramentas de registro utilizadas
  • Exemplos práticos
  • Descrição de exercícios
  • Observações preliminares sobre respostas do grupo

Capítulo 3 – Reflexões sobre os resultados do laboratório
(ênfase na análise, nos efeitos e na problematização conceitual)

  • A escuta como disparador compositivo
  • Modos de percepção do som e sua tradução em movimento
  • Reações dos corpos e dinâmicas coletivas
  • Corpo-sonoro e presença expandida
  • Cruzamento entre som e presença cênica
  • Tensão entre performer e performer-sonoro
  • O inesperado e a poiesis do erro
  • Ruído, tropeço, desvio: quando o erro gera material
  • Comparação com práticas anteriores
  • Tensões pedagógicas e políticas
  • O que essas práticas dizem sobre formação artística hoje?
  • Limites e aberturas para o ensino da poética multissensorial


5. Sugestões para fortalecimento da Tese:
  • Equilíbrio entre registros: em alguns momentos, há excessos no uso de passagens líricas ou memorialísticas. Embora isso possa ser um recurso estético legítimo, a função crítica do texto precisa aparecer com mais força, especialmente quando você está propondo um método.
  • Amarração teórica mais consistente: você cita bons nomes — Jorge Dubatti, David Roesner, Kofi Agawu — mas ainda falta construir relações críticas entre eles. Evite que as citações funcionem apenas como “acordes de apoio”. É preciso friccionar ideias, mostrar onde há convergências e onde há divergência. Por exemplo, que tipo de crítica sua proposta faz à abordagem “musicalizada” de Roesner?
  • Diálogo com a teoria da performance e com o teatro pós-dramático: sua proposta se insere, mesmo que implicitamente, no campo do performativo. Seria produtivo articular sua poiesis com autores como:
    • Hans-Thies Lehmann, especialmente no conceito de “trilha” como dimensão sonora da cena no teatro pós-dramático;
    • Erika Fischer-Lichte, em Estética do Performativo, pensando a presença e o efeito sensorial como experiência estética irreprodutível;
    • Brandon LaBelle, em Background Noise: Perspectives on Sound Art, para expandir a noção de som como campo de subjetivação.
  • Tensão político-estética: ao trazer elementos como a capoeira angola e autores africanos (como Agawu), sua pesquisa começa a tocar o território da descolonialidade (ou contra-colonialidade)  — o que exige responsabilidade epistemológica e ética. Sugiro incluir pelo menos uma base de sustentação nessa direção. Alguns nomes possíveis:
    • Leda Maria Martins – tempo espiralar, corporeidade e fabulação negra;
    • Ailton Krenak – crítica ao antropocentrismo e à colonialidade do saber;
    • Grada Kilomba – relação entre corpo, performance e saber situado.

Finalizando...

Vc  apresenta uma pesquisa robusta, madura e claramente enraizada em sua prática como artista e formador. O texto atual tem força de tese e pode evoluir com segurança se investir agora numa escrita que articule melhor crítica, teoria e escuta política. O que está proposto é bom — agora precisa se tornar ainda melhor e quem sabe, até paradigmático...


Um abraço e uma ótima pesquisa!
Luciana 
PS. Não esqueça de discutir com seu orientador os rumos da pesquisa antes de me enviar o material final até 15 de julho!

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